Reino do Amanhã – 20 Anos

por em 23 de abril de 2016
 

Completando seu aniversário de 20 anos agora em Maio de 2016, o Reino do Amanhã, saga de Mark Waid e Alex Ross da DC continua tão, se não mais, relevante atualmente. Mais do que qualquer elogio técnico que possa ser feito a essa saga, o principal ponto desse post vai ser o de lembrar a carta de amor a quadrinhos, super-heróis e, porque não, heroísmo que o Reino do Amanhã apresenta.

O começo de um Reino do Amanhã sombrio

A trama acontece uns 20 anos no futuro de sua data de publicação (portanto, hoje), ainda que nenhuma data especifica seja dada. Na trama, uma nova geração de seres super-poderosos, muitos filhos ou ate netos de personagens clássicos, tomaram as rédeas de seus antecessores na “proteção” da raça humana. Proteção essa entre aspas, dado o desapego a própria condição humana e aos valores humanos que essa turma tem. Vejam bem, essa leva de seres cresceu sem a liderança e exemplos dos personagens clássicos e, sem esse bússola moral, não entendem qual o real propósito de sua existência.

E por que essa liderança não ocorreu? Bom, sem entrar em spoilers (eu sei, 20 anos de publicação, mas a Internet eh a Internet…), um evento critico leva Superman a abandonar as chuteiras. Ainda que o estopim seja uma tragédia, o real motivo da aposentadoria do Super é a percepção que a sociedade buscava um outro tipo de herói, mais sanguinolento, mais autoritário, do que a posição que ele representava. E, nesse erro, Superman entrega a sociedade o que ela pede, mas definitivamente não o que ela precisa. O ser Magog, o ápice desse heroísmos “decisivo”, se torna o principal macho-alfa dessa geração.

Anos se passam até o presente da série. Super-seres brigam nas ruas por prazer, insensíveis a potenciais vitimas que os cercam. E, frente a tantas proezas super-poderosas, as vitórias e conquistas humanas ficam mais mudas, sem valor.

O meio revelador

O leitor se junta a trama do Reino do Amanhã nesse momento, acompanhando o Especto e sua ancora humana, Norman McKay, enquanto eles buscam os sinais do Armagedon que ambos sentem estar por ocorrer. Mais do que os sinais, ambos buscam entender quem deve passar o julgamento a essa geração de heróis ou, indo ainda mais longe, ao conceito de super-heroismo. A escolha do nome Norman (uma referencia a Norman Rockwell, principal artista do estilo “Americanna”) é simbólico.

Reino do Amanhã

Superman eventualmente volta a ativa, provocado por um terrível acidente, imbuído da missão de trazer de volta os heróis clássicos como treinadores e doutrinadores dessa nova geração. No outro vértice da trama, Batman e Lex Luthor enxergam essa movimentação como um passo totalitário de Superman no qual, ainda que respeitando a vida humana, não se respeita as decisões humanas. E, fechando a triforce, as Nações Unidas observam com receio o turbilhão de super energias que pode varrer o mundo, se preparando para o pior quando talvez tenham que por um fim a tudo com seu ultimo real poder, o atômico.

O final catártico

Não e difícil imaginar que o Reino do Amanhã acaba desembocando para uma grande batalha entre heróis (estamos falando de quadrinhos, pessoal), mas a forma como ocorre que é especial. Ao redor de uma grande prisão de super seres, organizada por Superman e sua Liga da justiça, a grande batalha do armagedom coloca gerações contra gerações, enquanto as Nacoes Unidas lançam 3 ogivas nucleares para terminar, de uma vez por toda, com todos os super-heróis. No embate principal, Superman luta com Shazam, que passou 20 anos sofrendo lavagem cerebral nas mãos de Luthor e sua cabal. Entendam, Shazam (ou melhor, o menino crescido Billy Batson) já não se enxerga como humano ou super: foi reduzido a uma marionete. Nessa condição, de forma explicita, não assume na trama o papel heróico que deveria ter. E de forma implícita a trama, não define a posição ideológica que precisa ser definida: precisamos de heróis ou não?

Reino do Amanhã

Pois eh justamente isso que Superman força Billy a assumir. Enquanto a ultima ogiva cai, Superman suplica que Billy escolha. Que tome a decisão mais relevante de todas: devem os super-heróis viverem? Ou deve a raça humana viver só?

A grande mensagem

O mundo certamente não é binário, ainda que alguns lideres o defina assim. A decisão de Billy ao final do Reino do Amanha é uma de esperança. Que sim, é possível haver heroísmo sem autoritarismo, desde que os valores de respeito sejam sempre preservados. Os heróis e super-heróis não existem em um vácuo: eles existem como fruto da condição humana, como fruto das aspirações humanas de serem melhores, de se superarem.

Nesse momento em que tantas visões de super-heróis existem na mídia, fica o desafio a produtores, diretores e influenciadores de não esquecerem disso. Os super-heróis nasceram dos seres humanos, para poder representar ideias que as vezes não conseguimos mostrar. Ao final, nem todos eles representam o que a raça humana é, mas sim o que ela pode ser, se tivermos a moral e a força para seguirmos em um caminho virtuoso. A decisão, tal qual do Shazam/Billy de salvar tanto os super-heróis como a humanidade, é nossa: nos inspiramos por esses ideais e nos tornamos melhores, ou deixamos que os nossos traços menos nobres permeiem esses ideais? A decisão acaba determinando uma visão de mundo mais cínica ou mais, digamos, colorida. Para esse eterno fã de heróis (desenhados ou não), a decisão é obvia.

Reino do Amanhã

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