“Otouto no Otto” vai estrear em série live-action!

por em 16 de fevereiro de 2018
 

A tal da foto.

Ultimamente tem pipocado na minha timeline do facebook a foto da série live action do mangá “Otouto no Otto” ou “O marido do meu irmão”, fazendo com que meu espírito otaku ressurgisse das trevas e me fizesse correr atrás para descobrir porque tanto bafafá em relação a essa história. Descobri, e estou aqui para compartilhar.

Tudo começa com quando Yachi, um pai solteiro, descobre que seu único irmão, do qual é gêmeo, faleceu no Canadá, onde morava com o marido. E como ele descobriu? O viúvo de seu irmão, Mike, resolveu ir até o Japão prestar sua homenagem, e conhecer o cunhado. Ele acaba ficando hospedado na casa de Yachi e sua filha, Kana, e é ai que a história começa.

Logo no início Yachi é apresentado como um homem moderno. Mesmo no Brasil não é comum ver um pai solteiro que trabalha em casa para criar a filha, então imagine no Japão, que é um país extremamente conservador. Claro, esse fato não o isenta de ter seus preconceitos, e a princípio ele se sente extremamente desconfortável com Mike em sua casa, pelo simples fato de que ele é gay. Aos poucos, com o convívio, ele vai percebendo que boa parte das coisas que pensa ou acha são somente isso: preconceitos, e vai desconstruindo aos poucos a visão que tinha, e percebendo que as coisas na verdade são mais simples do que pensava.

Kana é uma criança adorável. A princípio ela fica surpresa, pois nem mesmo sabia que existia casamento entre pessoas do mesmo gênero, e é através dela e de suas dúvidas que as perguntas internas do próprio pai são respondidas, ajudando a dar continuidade ao desenvolvimento da história. Além disso, a mensagem sobre não nascermos preconceituosos está bem clara, já que ela aceita tudo com naturalidade. Como diria Rousseau: o homem nasce bom, mas sociedade o corrompe (não que eu concorde 100% com isso, mas a ideia é por ai). O arco dela é muito voltado para o que os adultos pensam sobre a influência de casais não hétero em relação a crianças.

E por último, temos Mike. Um amigo meu chamaria ele de “tipo ursão”, por ele ser grande e peludo, além de extremamente caloroso e gentil. Por ser canadense e gay, a história ao redor dele se baseia mais no choque cultural, principalmente relacionado a sua sexualidade, ao perceber que, embora no Canadá seja tudo legalizado, no Japão as coisas são bem diferentes.

Sobre a história em si, é interessante destacar como o autor trabalha as diferenças claras entre “aceitação” e “tolerância”, mostrando que Yachi esse tempo todo vinha apenas tolerando a ideia de que seu irmão era gay, mas jamais aceitado. Mike não prega em momento algum sobre a “cultura LGBT”, mas sua simples existência na casa faz com que Yachi tenha várias lutas internas, questionando a si mesmo, restabelecendo as ideias ao longo do caminho, desconstruindo seus preconceitos, aprendendo coisas novas sobre si e sobre as pessoas que o rodeiam. É interessante observar o crescimento e amadurecimento dele durante a narrativa. A história também trabalha bem o arco de Mike, construindo aos poucos o modo como lida com o luto, conhecer uma parte da família que nunca tinha podido conhecer antes, descobrir um novo país, uma nova cultura. A medida que a narrativa avança, ele vai fazendo cada vez mais reflexões sobre como o Japão o enxerga, por exemplo. A narrativa trabalha com temas muito universais, e não é somente o povo japonês que vai se identificar com as dúvidas dos personagens, ou o que eles estão passando.

A carinha do autor.

Vale a pena destacar que o Japão é um dos países em que se evita muito a discussão sobre direitos da comunidade LGBT, sendo eles um grupo praticamente invisível por lá, embora em 2015 o distrito de Shibuya, em Tóquio, tenha sido o primeiro a reconhecer a união entre casais homoafetivos. Por enquanto, não encontrei notícias de qualquer outro distrito que tenha tomado a mesma medida, e a nível de esclarecimento, esse reconhecimento serve apenas para que casais possam alugar juntos um apartamento e sejam reconhecidos como parentes em hospitais, por exemplo. Por isso esse mangá está sendo considerado importante, não só em termos de representatividade. E plus, o autor é um dos poucos que é assumidamente gay e engajado.

O mangá é uma publicação de Gengoroh Tagame, e foi lançado em 2014, ganhando o prêmio por excelência no 19º Japan Media Arts Festival em 2015. Ele só possui 4 volumes, e é bem curtinho. Aviso logo que ele não chegou no Brasil, então quem se interessar terá que ir atrás por sua conta, mas não é difícil de encontrar não.

A série live-action deverá estrear dia 4 de março, ainda esse ano, e possuirá 3 episódios. Ele traz a direção de Teruyuki Yoshida e Yukihiro Toda.

Particularmente estou animada para assistir, já que curti muito o mangá. Os traços são diferentes dos que eu estou acostumada a ver, trazendo uma pegada mais “real” para o quadrinho, o que me agradou muito, além da história ser leve e trazer temas tão importantes, de um jeito muito bem trabalhado. Espero que mais pessoas o conheçam e vejam essa obra prima japonesa.