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Saquem os lencinhos: “O Homem de Lata” veio para nos emocionar!

por em 26 de fevereiro de 2018
Detalhes
 
Lançado em

2018

Nome original

Tin Man

Positivos

+ Capa maravilhosa;
+ Qualidade da folha 10/10;
+ História bonita, singela e cativante;
+ Bons personagens.

Negativos

- Um pouco confuso no início;
- Faltou desenvolver algumas questões.

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Sinopse
 

Em 1963, Ellis e Michael eram dois garotos de doze anos que se tornaram grandes amigos. Durante muito tempo, sempre foram apenas os dois, andando pelas ruas de Oxford, um ensinando ao outro coisas como nadar, descobrir autores e livros e a esquivar-se dos punhos de seus pais dominadores. Até que um dia algo muito maior que uma grande amizade cresce entre eles. Mas então, avançamos cerca de uma década nesta história e encontramos Ellis, agora casado com Annie, e Michael não está mais por perto. O que leva à pergunta: o que aconteceu nos anos que se seguiram? Esta é quase uma história de amor. Mas seria muito simples defini-la assim.

 

[…] Ele pegou a câmera e demorou o tempo que achou necessário, pois queria fazer direito. Eles pareciam tão felizes, pareciam uma família, e ele queria mostrar isso na foto. Eles eram a única coisa importante naquela tarde quente e ensolarada de junho de 1991. […]” (pg.155)

Quando li a sinopse do livro, tive uma impressão da história. Não é que esteja errada, mas o que realmente acontece é um pouco diferente do que imaginei, e muito mais interessante. O enredo gira em torno de superação, amadurecimento, aceitação e, em minha concepção, luto.

Tudo começa com Ellis, com seus mais de quarenta anos, apenas existindo em uma vida vazia e sem sentido, obviamente dentro de um processo depressivo de luto. É quando descobrimos que sua amada esposa e melhor amigo morreram no mesmo dia, há cinco anos, e Ellis não consegue superar. Ele está anestesiado pela dor. Então um acontecimento de quase morte o faz respirar de verdade pela primeira vez, fazendo-o “ficar” lúcido (assim ele descreve), passando a enfrentar a realidade e a voltar a vida. Essa é a primeira parte do livro, pois em determinado momento, ele encontra o diário de Michael, seu falecido melhor amigo, e ao lê-lo, inicia a segunda metade da história.

Bem, como eu disse, o livro vem em duas partes: Ellis e Michael. Eles se conheceram no início dos anos 60, e se tornaram amigos inseparáveis, e também eram algo mais, algo nunca nomeado. Com o tempo, esse “lance” entre eles morre (motivos diversos que não contarei, óbvio), e Ellis se casa com Annie, uma mulher maravilhosa, e os três formam um laço inseparável de amizade. Mas, em algum momento, Michael não aguenta mais ver o amor da sua vida com outra pessoa, por melhor que ela seja, e desaparece da vida deles por anos. E é isso o que descobrimos na segunda metade do livro: o que Mike fez enquanto estava longe.




A história, no geral, é muito simples e bem contada. Logo no início você consegue perceber os sintomas de luto de Ellis, o modo como ele vai desenlaçando seu passado, seus arrependimentos, sua história. Ao mesmo tempo em que vive o presente, fazendo novas escolhas, optando por dar continuidade a vida, e percebendo que ainda tem tempo para voltar a ser feliz, aceitando que seu passado e que as pessoas que ele ama não vão voltar.

Depois temos Michael, que precisa cuidar do seu coração partido, e precisa amadurecer muitas questões. E aqui a autora também introduz assuntos delicados, sobre como ele ficou órfão, sua homossexualidade – que ele aceita de maneira natural, a morte de pessoas queridas e o medo da aids, muito presente na sua vida. Apesar de tudo isso, eu achei pecaminoso ela citar todas essas coisas e não aprofundar, mas eu entendo. O foco dela era a jornada dele, e dentre tantas coisas, a narrativa poderia se perder.

Annie não tem um arco próprio, pois a história se foca somente em Ellis e Michael, mas ela é uma peça chave para entender o que havia entre eles. Sem falar que Annie é uma personagem maravilhosa, muito bem introduzida. Ela é animada, compreensiva e com uma sensibilidade naturalmente desenvolvida. Eles formam um trio tão incrível que dá vontade de ter participado da vida deles.

Achei interessante também como a autora introduziu a arte, através da mãe de Ellis, uma mulher que vivia com um marido que a traía e não a tratava bem, mas mesmo assim, não deixava a centelha de vida morrer, sempre com uma palavra gentil, um sorriso e algo a ensinar aos rapazes. Ela mostra a eles seu quadro favorito, conversa com Ellis e Michael sobre arte, e isso no futuro tem muito impacto na vida deles.

Tem alguns assuntos no livro que eu achei mal explorados, e não teria feito mal a autora trabalhar mais neles. Um exemplo, ela dá uma pincelada nas relações familiares dos dois personagens principais, que são conturbadas, mas é só isso mesmo, um vislumbre, e poderia ter sido mais. Mesmo assim, é uma história muito boa, e simplicidade é a palavra-chave. E é um livro bem pequeno, então você pode terminar de ler rapidamente, principalmente porque a história flui depois que você entende a proposta.

Gostaria somente de fazer uma rápida observação. Embora Michael seja obviamente gay, vou lembrar a todos que não existem só duas sexualidades no mundo, e apesar de Ellis correr o risco de ser lido como gay enrustido, ele obviamente amou Annie, assim como amou Michael (nada disso é spoiler, está na sinopse), então, pessoas, só uma palavra para vocês: bissexual. Beijos no core.

A capa está maravilhosa, e eu amei o tom de amarelo, além das referências à própria história. A única reclamação seria a falta de uma separação de capítulos, o que deixa um pouco confuso as referências de tempo, pois a história transita entre passado e o presente, então tem que ter uma atenção redobrada. Mas não é culpa de ninguém, é claro, e é uma coisa pessoal minha, pode ser que ninguém mais tenha sentido isso.

O livro tem um temática LGBT muito singela, mas, para mim, o foco é a superação e amadurecimento. É uma leitura gostosa, e vale muitíssimo a pena acrescentá-la na sua lista de livros de 2018. De nada.