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Loney: terror ou suspense? Um romance por Andrew Michael Hurley

por em 12 de março de 2017
Detalhes
 
Lançado em

2016

Nome original

Loney

Positivos

- Livro bem escrito;
- Personagens bem construídos;
- Capa dura;
- Boa diagramação.

Negativos

- Sem foco;
- História arrastada;

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Sinopse
 

Quando os restos mortais de uma criança são descobertos durante uma tempestade de inverno numa extensão da sombria costa da Inglaterra conhecida como Loney, Smith é obrigado a confrontar acontecimentos terríveis e misteriosos ocorridos quarenta anos antes, quando ainda era criança e visitou o lugar.
À época, a mãe de Smith arrastou a família para aquela região numa peregrinação de Páscoa com o padre Bernard, cujo antecessor, Wilfred, morrera pouco tempo antes. Cabia ao jovem sacerdote liderar a comunidade até um antigo santuário, onde a obstinada sra. Smith crê que irá encontrar a cura para o filho mais velho, um garoto mudo e com problemas de aprendizagem.
O grupo se instala na Moorings, uma casa fria e antiga, repleta de segredos. O clima é hostil, os moradores do lugar, ameaçadores, e uma aura de mistério cerca os desconhecidos ocupantes de Coldbarrow, uma faixa de terra pouco acessível, diariamente alagada na alta da maré. A vida dos irmãos acaba se entrelaçando à dos excêntricos vizinhos com intensidade e complexidade tão imperativas quanto a fé que os levou ao Loney, e o que acontece a partir daí se torna um fardo que Smith carrega pelo resto da vida, a verdade que ele vai sustentar a qualquer preço.
Com personagens ricos e idiossincráticos, um cenário sombrio e a sensação de ameaça constante, Loney é uma leitura perturbadora e impossível de largar, que conquistou crítica e público. Uma história de suspense e horror gótico, ricamente inspirada na criação católica do autor, no folclore e na agressiva paisagem do noroeste inglês.

 

Para começo de história, eu nunca tinha ouvido falar desse livro, mas então eu ganhei ele de aniversário de uma amiga maravilhosa, que tem uns gostos super psicopatas, e ela me disse que, apesar de não ter lido, gostou da sinopse e viu que ele está bem indicado como livro de terror. Claro que eu amei, porque eu amo ganhar livro. E ele é bom. Mas não é bem de terror.

A história começa em Londres, com Smith (não é o primeiro nome dele, mas eu não lembro qual é e costumam se referir a ele só como Tonto, por causa do Cavaleiro Solitário, então vou chamar assim mesmo) lendo uma notícia de jornal sobre uma criança encontrada morta perto de uma casa em um lugar chamado Loney, que parece ser um pedaço bem isolado da Inglaterra. Foi um fato que aconteceu há pelo menos 30 anos e ele estava lá.

Quando ele era um adolescente, sua família era extremamente religiosa, do tipo, EXTREMAMENTE MESMO. Viviam em função da religião, basicamente. Ele mesmo era coroinha da igreja e tinha um certo orgulho nisso. O padre da congregação faleceu, o velho padre Wilfred, e agora eles têm que se satisfazer com o jovem padre Bernard McGrill, que é mais novo e obviamente diferente. Para satisfazer à nova paróquia, ele (o padre) tenta manter as tradições, e por isso, em um longo feriado de Páscoa, ele viaja com a família de Smith e outras pessoas da congregação para o Loney, um lugar que eles costumam viajar sempre e aparentemente é um local que possui uma aura sagrada ou santificada.

O lugar é lúgubre, instável e cheio de possíveis perigos, mas o grupo da congregação vê como um lugar mágico, tocado por Deus, isolado de todo o pecado do mundo. Esther, a mãe do protagonista, é a líder da congregação. Todos basicamente se voltam aos caprichos religiosos dela, sempre apoiando a sua decisão por ser uma mulher tão dedicada à igreja, e assim, confiável. Ela insiste que no Loney há uma fonte com água sagrada, que fica dentro de uma espécie de caverna onde ficava uma antiga igreja, e essa água irá curar seu filho mais novo, Andrew, que possui uma estranha mudez e problemas de aprendizado. Vários leitores, em suas resenhas, citaram um provável autismo do personagem, mas no livro essa palavra não é usada. Ele é visto mais como um garoto indefeso, que apesar de ter seus dezesseis anos (idades não são bem citadas, então eu estou supondo), age como criança bem mais nova e assim é tratado. Inclusive, Smith diz que é sua missão proteger o irmão, pois são bem unidos e ele é o único que consegue entender o código feito por ele para se comunicar.

Voltando ao padre, Esther parece viver em conflito com ele, pois ela parece ser avessa a mudanças e exige que ele se porte como o falecido padre. Todos a apoiam silenciosamente, mesmo que não concordem exatamente com isso. Então o livro gira em torno da visão jovem do protagonista sobre o novo padre, que é seu amigo, sua mãe muito religiosa, o local – ermo e frio, mas onde ele e o irmão ainda encontravam cantos para se divertir, e uma “aventura” inesperada e perigosa quando seu irmão perde o relógio e o mesmo é encontrado por um estranho homem, que vive em uma casa na beira do mar com uma criança grávida e uma mulher adulta que não parece se importar com nada. E ainda assim, não é bem disso que o livro trata.

Eu não sei bem como descrever a história do livro, pois ele fala de muita coisa, mas de nada muito específico, além dos fatos daqueles dias de viagem. Eu não sei dizer qual é a trama principal. Seriam os dois irmãos descobrindo a ilha, o mais velho observando coisas estranhas e suspeitas e tentando cuidar do irmão? Seria a tensão entre a mãe e o padre? Seria a ideia de que o antigo padre morreu de repente e há uma mistura de sentimentos e ideias sobre como ou porque ele teria morrido? Seria Clement, o personagem grande e desajeitado que aparece sempre para se mostrar infeliz, mas cheio de fé e boa vontade, sempre os avisando sobre algo estranho na ilha e pedindo que vão embora? Seria a casa na região de Moorings, no Loney, onde os irmãos encontram uma criança grávida e um casal rico e excêntrico cuidando dela? Eu poderia destrinchar todos os sub-plots e ainda não saberia dizer qual é o foco do livro. Além de tudo isso, tem mais e mais flashbacks do principal, lembrando de quando ele era coroinha do antigo padre, exibindo as ideias distorcidas dele sobre o que é religião e fé. É meio inception, porque é um flashback dentro de outro flashback, visto que o livro se passa nas lembranças do personagem.

Os questionamentos sobre fé são intensos, criando um clímax extenso e complexo em cima disso, sempre se voltando para o tema, seja com a mãe de Smith, seja com o padre Bernard, seja com as lembranças de Smith sobre o padre Wilfred e seus ensinamentos. Às vezes você tem a sensação de que algo vai acontecer, mas você fica sempre preso nessa margem, esperando. E nada acontece de verdade. Tudo fica em aberto. Me lembrou o final do filme de “Silent Hill” ou a série de livros “Desventuras em Série”, que você termina e pensa “Mas o que o autor/criador quis dizer com isso? Será que eu entendi certo? ” e faz você pesquisar, porque você quer ter certeza. No caso de “Loney”, eu não encontrei, então eu continuo me perguntando se eu entendi certo.

Em outras críticas eu li que o terror do livro é pautado na fé. Concordo até certo ponto. O terror está em pensar que não há nada. Que a sua religião, sua fé, toda a sua dedicação a algo maior, a salvação da sua alma mortal, na verdade é vã. Creio que aí seria a parte de terror, mas primeiro você tem que ser religioso e estar apto a se abrir a esses questionamentos.

O livro é bem gostoso de ler, mas como nada acontece, é bem arrastado. Eu demorei um pouco para terminar, pois ficava sem paciência. A história é interessante, e o autor soube colocar os argumentos dele de maneira pontual e bem pensada. Os personagens são bons, bem construídos, e a capa cinza resume bem o sentimento geral do livro, de que tudo é cinza. Vale a pena gastar um tempo para lê-lo, mas não espere por terror, mas sim por um suspense. E aí você não irá se decepcionar.