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As aventuras de Pinóquio em: o que os filmes nunca te contaram sobre ele

por em 7 de junho de 2017
Detalhes
 
Lançado em

2011 (no Brasil)

Nome original

Le avventure di Pinocchio - Storia di um Burattino

Positivos

- Livro icônico;
- Filme famoso e bem feito;
- Personagens incríveis;
- História cativante.
- Posfácio por Italo Calvino (pelo menos na minha edição).

Negativos

- Querer esmurrar Pinóquio por 343 páginas.

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Sinopse
 

Esqueça as adaptações em livro ou filme, que pasteurizam uma das histórias mais ricas e bem narradas da literatura. A tradução do texto integral de Ivo Barroso mantém o delicioso ritmo de folhetim associado a uma linguagem refinada e límpida do original. No posfácio inédito no Brasil de Italo Calvino, ele comenta o alcance do livro: “Quando comecei a escrever considerei Pinóquio um modelo de narrativa de aventuras; mas creio que sua influência devia ser estudada em todos os escritores de nossa língua”.

As ilustrações exclusivas de Alex Cerveny são uma atração à parte: o artista brasileiro utilizou a técnica cliché verre, do final do século XIX (contemporânea ao livro), na qual se chamusca uma placa de vidro com uma vela e desenha-se rapidamente sobre esta superfície com um objeto pontiagudo. O resultado são imagens oníricas de um Pinóquio nunca antes imaginado.

 

Quem não conhece Pinóquio? Eu não sei vocês, mas o filme dele da Disney sempre me aterrorizou com a cena dele virando burro. Aliás, conheço outras pessoas que também admitem ter tido medo da mesma cena. Claro que hoje em dia não há mais esse medo – já crescemos e somos todos burros mesmo – porém, quando criança, foi um dos filmes da Disney que eu menos assisti empatado com “Dumbo”, que para mim, é um filme tão doido que eu não consigo gostar, mesmo sendo um clássico. Mas estou divagando.

    Olha que homi bonito!

Carlo Collodi é o pseudônimo de Carlo Lorenzini, um escritor italiano que viveu no século XIX e é o verdadeiro pai de Pinóquio. Ele começou como jornalista, depois tornou-se escritor, mas nenhuma de suas obras realmente fez sucesso até sua decisão de lançar um periódico (jornal) para crianças e ali estabelecer a “Storia di um Burattino” (História de um boneco), que fez um tremendo sucesso. A história foi escrita inicialmente em capítulos, como seria comum na época, sendo lançado apenas quinze no jornal antes de ser publicado como livro ilustrado. Diferente do filme de Walt Disney, na história original Pinóquio tem trinta e seis capítulos para se redimir antes de conseguir a proeza de se tornar um menino de verdade.

 

“- As mentiras, meu menino, são logo reconhecidas, pois são de duas espécies: há mentiras que têm perna curta e mentiras que têm nariz comprido. As suas pelo visto são das que tem nariz comprido.

            Pinóquio, não sabendo mais onde esconder a vergonha, tentou fugir do quarto; mas não conseguia. Seu nariz havia crescido tanto, que não passava mais pela porta. ” (p.144)

 

Na versão de Walt Disney, Pinóquio é um menino de madeira esculpido pelo carpinteiro Gepeto e se torna seu filho. O menino é ingênuo, doce, muito bobo e facilmente manipulado. Ele se mete sem querer em várias encrencas, que o levam a vários caminhos que ele não merece e no fim, se torna quase um burrico e precisa ajudar o pai a ser salvo da baleia que o engoliu, provando assim ser digno de se tornar de carne e osso (Ou eu me lembro que seja assim. A autora não assistiu novamente o filme). Temos um grilo falante carismático, um menino verdadeiramente bom, um pai amoroso. Tudo pronto para um final feliz maravilhoso.

O livro, em contrapartida, não tem nada disso. Pinóquio passa longe do seu irmão cinematográfico. Aqui ele é teimoso, egoísta, birrento, mimado, metido a esperto, ingênuo, porém estúpido, ele briga com todo mundo, é um tanto quanto sádico, fala palavrão a torto e a direito, e é muito desobediente. Além de outras coisas. Dá para entender porque mudaram a personalidade dele para as adaptações cinematográficas: ninguém quer assistir as aventuras de um menino babaca.

Mas enfim, Gepeto não queria esculpir um menino. Ele ganhou o toco de madeira mágico de um colega, e ainda como pedaço de madeira, Pinóquio já fazia traquinagens o suficiente para machucar as pessoas e rir da cara delas. O motivo pelo qual Gepeto faz desse toco malcriado um menino ainda é um mistério para mim, mas ele o faz e tão logo Pinóquio tem pernas ele foge de casa e faz com que seu pai seja preso. O menino fica sozinho em casa e TOCA O TERROR, inclusive ele mata o grilo falante, que só estava tentando ajudar. Sim, isso mesmo. ELE MATA O GRILO FALANTE! E põe a culpa em outra pessoa.

O pobre Gepeto, quando finalmente é solto da cadeia, volta para casa para encontrar um Pinóquio que queimou o próprio pé e implora para que ele o ajude. O homem o ajuda depois que o menino promete não fugir e não fazer mais malcriação. É claro que era mentira, e na primeira oportunidade, Pinóquio apronta com o pai. Ao invés de ir à escola, ele vende seus livros (comprados com muito esforço por Gepeto, que é extremamente pobre) e vai ao circo, onde prontamente passa por poucas e boas, mas consegue sair vitorioso com quatro moedas de ouro.

Ele promete a si mesmo que vai compensar o pai, mas ele encontra com a raposa e o gato, que o tiram do caminho e o enganam, não só roubando seu dinheiro como quase o matam! Sorte a dele que é encontrado pela fada madrinha, que o salva e tenta cria-lo como se fosse seu filho. Mas Pinóquio não resiste a ser um menino desobediente a cada segundo que passa, e mais uma vez se mete em confusão. E é assim até o livro acabar. Um looping quase infinito do Pinóquio prometendo se comportar, se desviando do caminho com algumas desculpas esfarrapadas, passando por imensos problemas causados por ele mesmo e se safando no último minuto!

A todo momento Pinóquio se cerca de pessoas que querem o seu melhor e se esforçam para ensiná-lo o caminho da bondade, mas sua natureza não permite que ele se torne um bom menino e só acontecem desgraças com ele. Inclusive se tornar completamente um burro e ser salvo no último minuto pelo poder do protagonismo, pois, como eu disse, ele é ingênuo, mas também é bem esperto e tem uma língua ferina que acaba por ajuda-lo.

Esse ciclo se repete e se arrastam por TRINTA E SEIS CAPÍTULOS, que por acaso são muito bem escritos e você passa todos eles desejando que haja consequências de verdade para ele, que é um ser insuportável até aprender a lição perto do fim do livro. É uma história que obviamente quer dizer “Seja bom, seja obediente, estudioso e esforçado ou só vai acontecer desgraças com você”. Acho que Carlo Collodi acreditava fortemente em carma.

Dá para entender o motivo pelo qual o livro se tornou um sucesso estrondoso: com certeza todos os pais gostariam que se filho lesse as histórias e se tornasse obediente, com medo de acontecer consigo o que aconteceu com Pinóquio.

 

“- Está brincando! Acha que vou perder a ocasião de provar um peixe tão raro? Não é todo dia que me aparece um peixe-boneco nestes mares. Pois deixe comigo: vou fritá-lo na frigideira junto com os outros peixes, e você vai ficar contente. Ser frito em companhia de outros é sempre um consolo.

            O infeliz Pinóquio, diante dessa ameaça, começou a chorar, a estrilar, a se lamentar; e chorando dizia:

            – Muito melhor se eu tivesse ido à escola! …. Fui dar ouvidos aos colegas e agora pago por isso. Ai! Ai! Ai! …” (P.242)

 

O livro é muito gostoso de ler, apesar de você querer arrancar o Pinóquio da história e estapeá-lo ao longo do caminho. Os personagens são ótimos, e há tantos absurdos no livro que fica divertido. E, claro, a moral do livro é excelente, mostrando que tudo na vida se consegue com muito esforço e dedicação, e o caminho fácil é sempre ruim e vai trazer consequências que muitas vezes você pode não saber lidar.

Pinóquio possui muitas adaptações no mundo inteiro, incluindo filmes, teatro, e até participações em séries, como em “Once Upon a Time” (aquela série que tem a pior protagonista, efeitos especiais horríveis e que faz você se apaixonar pelos vilões) ou na franquia do Shrek, que para mim, é a melhor versão. E vale muito a pena você conferir a maioria delas. A minha edição do livro é da falecida CosacNaify, e apesar de ter custado um rim (não para mim, pois eu ganhei do boy) vale a pena: ela é ilustrada, a qualidade é maravilhosa, a tradução está incrível. Suponho que hajam outras versões, então se rola interesse, sugiro que vá atrás. Não vai perder seu tempo ao ler.