Esse livro de Caverna do Dragão tem um final, mas não é feliz

por em 20 de Março de 2015
 
Capa da reedição

Capa da reedição

Autor: D4mon3 (Eduardo Assumpção)

Publicado em: 2011

Editora: Safir editora

Sinopse: O dia que começou perfeito era para terminar em comemoração, mas transformou-se em pesadelo: os seis amigos que pensaram em se divertir no parque tiveram seus destinos alterados.

Ao entrar na mais moderna e comentada montanha-russa do mundo: A Caverna do Dragão, não concluíram o passeio e foram parar no Reino: um lugar surreal, cheio de perigos e criaturas fantásticas, onde de posse das Armas do Poder vão lutar por suas vidas e procurar o caminho de casa.

Guiados pelo Mestre dos Magos enfrentarão um ser de aparência maligna: O Vingador que fará de tudo para tomar seus artefatos mágicos.

 

 

A Caverna do Dragão” é um desenho baseado nos famosos RPG’s, mais especificamente, “Dugeons & Dragons” (sendo, inclusive, seu nome original). Ele possui 27 episódios e começou a ser transmitido entre os anos de 1983 e 1986. Bem novinho. Todos conheceram a sua história: 6 jovens numa montanha russa – chamada convenientemente de “Dugeons & Dragons”- acabam entrando por um portal e chegando em uma terra totalmente desconhecida e medieval, onde eles mesmos passam a possuir roupas estranhas do lugar e armas mágicas, chamadas de “Armas do Poder” (que tanto irão lhes ajudar quanto trazer problemas). A partir daí temos uma série inteira dos jovens tentando voltar para a casa sem nunca podermos ver, pois o final nunca foi feito.

Porém, tivemos um jovem fã, que após esperar tantos anos pelo final, resolveu que teria o seu próprio fim, além de sua própria história baseada no desenho que tanto ama. O livro foi lançado em 2011 e em 2014 teve sua reedição. Ele também já lançou uma continuação, intitulado “Caverna do Dragão – As Duas Cores” e planeja escrever mais dois (ou assim dizia o site oficial). Para quem é fã da série e quer ler o livro, saiba logo de cara: não é a mesma história com um final inventado. No todo, não é a mesma história. D4mon3 se BASEOU na história apenas. É como assistir um filme hollywoodiano do seu livro favorito: eles só usam a ideia geral. E foi o que o autor fez.

Tudo começa com uma ligeira apresentação dos personagens em um jogo de basquete no colégio dos personagens (menos de Hank, que, se eu entendi, já está na faculdade) e Eric é o astro. Vemos então Sheila, seu namorado, Hank, sua melhor amiga Diana e seu irmão Bobby. E o amigo de Eric, Presto. Após a vitória de Eric, os amigos vão para o parque de diversões e, com a influência do pai do rapaz, eles irão furar a fila e entrar primeiro na estreante montanha russa: A Caverna do Dragão. Onde já sabemos que vai dar tudo errado, serão tragados por uma luz estranha e irão parar em uma espécie de saguão estranho com seis estátuas: uma “mulher gato”, um dragão de cinco cabeças (obviamente o Tiamat), uma espécie de réptil humanoide, uma mulher com roupa de aviadora dos anos 20, um cavaleiro medieval bem velho e o Vingador (eles não sabem que é ele, mas nós sabemos). Cada um dos jovens acaba por se sentir atraído por uma dessas estátuas e assim que as tocam eles se transformam a la Sailor Moon, ganhando roupas novas e uma arma mágica. E ao contrário do que lembrados do desenho, Diana nesse caso tem um chicote e não um bastão. Mas o resto está igual. Quer dizer, Eric e Hank agora são altos, sarados, bonitões. Presto continua magrelo.

O grupo fica assustado, ninguém sabe como sair dali, até que são tragados por um misterioso rodamoinho que os leva diretamente para as terras do Reino. Lá, totalmente surtados, sem saber o que está acontecendo, eles encontram com o Mestre dos Magos, que dá algumas explicações rasas – como sempre – e depois conta a história do Reino (o nome criativo que deram para o lugar onde eles foram parar), sobre a irmandade de magos poderosos que ele estava formando para cuidar do lugar, como cada um ganhou uma arma e ganharia a gêmea dela quando ele achasse os seis, como ele foi traído pelo Vingador (porque os magos são aqueles representados pelas estátuas que eles encontraram no início) e acabou tendo que esconder as armas. Houve uma guerra, Vingador e Tiamat foram os únicos que saíram ilesos e o Mestre dos Magos ficou preso no Reino até encontrar novos magos para tomarem a responsabilidade. Obviamente que os seis amigos não querem fazer parte, só querem ir para casa. Inclusive, Eric é o que surta mais com a ideia e isso é explorado várias vezes, esse surto dele querendo ir para casa. Então o Mestre dos Magos passa uma missão para eles: levarem a pequena unicórnio para casa, para que o Vingador não possa pôr as mãos nela e esse é o caminho que devem seguir para ir para casa. Bobby imediatamente se afeiçoa a criatura e a batiza de Uni. E os jovens começam a empreitada.

Bom, a história teve uma boa premissa, a mesma do desenho: voltar para casa a qualquer custo. Hank continua sendo o líder, o Mestre dos Magos manteve sua essência de filósofo e sumindo a la Batman no meio da frase das pessoas, os nomes continuam o mesmo, essas coisas. Inclusive ele manteve um pouco das situações como se vê no desenho, mas de uma maneira literária. Também há um tom mais adulto na história, com cenas de violência e morte, implicações sexuais e tal. E cada personagem tem uma história de fundo “trágica”, que trata de um assunto específico, como por exemplo, bullying.

Agora, falando em termos mais específicos, eu não gostei do livro. Achei que a narrativa dele é muito chata, descritiva além do limite e o tempo todo o autor explica o que está acontecendo. Por exemplo, uma cena em que estão subindo a encosta e Diana é a primeira a subir e Presto o último. Todo mundo sabe que a Diana é acrobata e o Presto um nerd sedentário, então fica implícito o motivo do arranjo, mas não foi o bastante para o autor, que teve que contar com detalhes o motivo de ter sido assim. E isso acontece o livro inteiro, com a maioria das situações. Fiquei me perguntando se ele estava esperando escrever para pessoas com Q.I. de ameba, mas esqueceu de que pessoas assim nem encostam em livros. Além disso, há incoerências na história, muitos buracos a serem tampados – e acho que foi um dos motivos pelos quais ele resolveu aceitar fazer quatro livros: está tudo muito mal explicado. E ele propôs diversos temas na história, dentro da história pessoal de cada personagem: bullying, racismo, responsabilidades, perda de familiares. Todos esses temas foram ou mal trabalhados ou, como no caso do racismo, pura hipocrisia. Diana é chamada, o tempo inteiro, no livro de “negra”. Enquanto Sheila é chamada de ruiva, Diana é a negra. O. Tempo. Inteiro. Alguém ensina pra esse autor que não dá para tratar sobre racismo – que foi tratado de maneira superficial e muito fake, em minha opinião – sendo racista.




Uma coisa que me incomodou também foi a falta de informação sobre a idade dos personagens. Que idade esse povo tem? Sério. Por exemplo, na história de Sheila, ela mora em outro estado, se envolvia com caras e enchia a cara com tequila. Dois anos antes de a história começar, se eu entendi bem, porque a linha do tempo dele é bem… Confusa. Pelo menos para mim. E se eles são adolescentes – e nos EUA eles entram na faculdade com uns 16 anos, e no livro ela ainda não foi para a faculdade (pelo que entendi), então quer dizer o que?! Façam seus cálculos.

Outra coisa que me incomodou é que o livro dá muita ênfase ao trio Hank, Sheila e Eric. Aquilo é um triângulo amoroso dos mais chatos e mal trabalhados. Não há química alguma entre Hank e Sheila, descobrimos que Hank era melhor amigo de Eric e parou de falar com o amigo quando ele namorou a garota (tipo, cadê o valor da amizade queridinho?!), depois que eles terminaram, Hank saiu das trevas e passou a tentar conquistar Sheila até que começaram a namorar, e toda a motivação do Eric, em boa parte do livro, é reconquistar Sheila, que parece totalmente na dele. E o motivo pelo qual eles terminaram foi o Bobby (oi?!), que primeiro sabemos que odeia o Eric, mas depois descobrimos que não é bem assim. OI?! Só mais coisas incoerentes e mal trabalhadas, e tenho fé em Deus que ele irá esclarecer pelo menos isso no segundo livro.

Capa da primeira edição

Capa da primeira edição

Falando em relações, será que ele já ouviu que mulheres não precisam formar par com alguém? Não é porque você é adolescente e está em um grupo que precisa se envolver com alguém dali. Diana começa a história super interessada em Eric, mas ao ver que o rapaz não ta nem ai para a deusa escultural que ela é, ela foi para o que restava do grupo: Bobby. Não, to brincando. Foi dar bola para o Presto, que é então chamado de “paquera” pelo resto do livro, mas eles não trocam nenhuma paquera, também não tem química e nem se beijam nem nada, mas do nada estão andando de mãos dadas e meio que formam um casal. Porém Diana tem uma ótima química com Eric. Vai entender. Ela podia não se interessar em alguém, ou deixar para lá depois que viu que o Eric não ia querer, mas não, ela tinha que “ficar” com alguém. Pra quê isso?!

Temos também outro ponto estranho. Os garotos tinham acabado de chegar ao Reino, estavam ainda se adaptando aquilo tudo e são atacados por uma horda de bichos e matam todos. É, isso mesmo, matam todos. E isso inclui Bobby, que tem o que? 12 anos? E o único lapso de consciência que rola é de Hank e dura dois segundos. Como assim? Jovens comuns da cidade, de repente em um lugar medieval estranho são atacados e fazem uma chacina completa e nem sentem nada? Nem ficam bolados com isso?! Cadê a realidade que o autor se propôs a trabalhar no livro?! E para piorar, ele comem os bichos, então… Adeus coerência realista.

Os próprios personagens estão mal feitos, falando nisso. Diana teoricamente sofreu racismo UMA vez, nos EUA, e tirando isso, ela é a mulher perfeita. Ela é alta, bonita, rica, inteligente, atleta, esperta, com um senso de humor impecável, e ela é o R2-D2 desse livro: sem ela ninguém teria feito nada. Ou, em outra analogia, ela é o Palpatine e o Darth Vader ao mesmo tempo, mas Hank é que é o líder, e fica tendo surtos no meio do livro porque não quer isso, mas ele é o rei da preocupação, e na verdade ele se torna chato e maçante, com lapsos de ficar olhando para o nada e tendo ciúmes o tempo todo de Eric, enquanto finge que é um bom moço. O machismo impera nesse livro, devo dizer. Ah, não acredita e eu sou uma feminista doida? Além de tudo o que eu falei de Diana, podemos também falar de Sheila: o fetiche ambulante. Ruiva, gostosa, também esportista, a garota que aceita tudo dos caras, super compreensiva e tal. Eric dá ênfase a essa característica dela varias vezes.  Ao invés do autor vingar a personagem que poderia ter sido bem trabalhada, ela só tem utilidade na trama uma vez – e nem é tão relevante. De resto, ela é apenas o objeto de desejo de dois caras, com ênfase em Eric. Triste realidade. Vamos esperar que ele tenha lembrado de trabalhar melhor a personagem na continuação.

Já Bobby é um mini psicopata de 12/14 anos. Ele mata sem dó, faz birra, fica batendo o pé e é descrito como um menino que ninguém consegue dobrar e cheio de acessos de raiva e essas coisas. Mas essa descrição está errada, já que não somente ele age como um garoto normal entrando na adolescência, como basta uma conversa e ele se torna razoável. Mas ainda é um personagem que só aparece para correr e brincar na maior parte do tempo.

Sobre Presto, ele foi outro que além de mal trabalhado, foi mal explorado e se passou de estúpido o livro inteiro. Ele é descrito como um nerd, mas ele é o que menos sabe das coisas. E o autor tentou trabalhar a insegurança dele, mas falhou miseravelmente, a meu ver, já que todo mundo passou o livro dando a resposta sobre como ele deveria usar o chapéu dele e ele ignorou bonito, até, obviamente, o último momento. Seria cômico se não fosse triste, porque você está perdendo tempo tendo acessos de raiva, já que dão a resposta para ele, esfregam na cara dele o que o garoto precisa fazer, e ele prefere ser emo e ficar no cantinho choramingando que é o único que não consegue usar sua arma.

Enfim, acho que já deixei claro meu descontentamento com o livro. Obviamente muita gente gostou, tanto que foi considerado um sucesso, mas eu não me espanto. A “Caverna do Dragão” é muito popular, e obviamente que os fãs devem querer se deleitar em qualquer coisa que puderem por as mãos sobre o tema. Não os julgo. Só o autor, que poderia ter trabalhado muita coisa e deixou tudo mal feito. Agora é esperar que na continuação ele tenha consertado alguma das coisas, explicado os buracos que ficaram, esse tipo de coisa. Oremos em conjunto irmãos, para que o que restou de uma de nossas histórias favoritas não seja maculada de maneira errada novamente.